[Mário Cordeiro] ‘A vida moderna tornou-se insustentável para as famílias’

20-02-2019

É, simultaneamente, uma realidade dos nossos dias e o nome do mais recente livro do pediatra Mário Cordeiro, lançado em Lisboa no dia 18 de fevereiro. Pais Apressados, Filhos Stressados é um guia simples para saber tudo o que pode fazer para mudar a sua vida antes que ela o faça perder a cabeça. E a dos seus filhos.

Todos os pais sabem que um dia é pouco para madrugar, correr para o duche, arranjar os miúdos, levá-los à escola, voar para o emprego, trabalhar sem pausas, ir buscar os filhos, ajudá-los a fazer os trabalhos de casa, dar-lhes banho, um jeito à casa, preparar jantar e lanches para o dia seguinte, um stress infinito. Ainda que trabalhem 12 horas, há sempre encargos pendentes que os fazem agarrar-se de novo ao computador e ao telemóvel mal chegam a casa, sem cabeça para nada, nem mesmo para os filhos - sobretudo para os filhos.

"Nunca, na história da humanidade, houve tanta qualidade de vida como agora, e no entanto o ritmo moderno tornou-se insustentável", lamenta o pediatra Mário Cordeiro, para quem alguma coisa terá de mudar antes que as famílias colapsem. "A sociedade do facilitismo acabou por ter como efeito secundário pensarmos que somos quase deuses, omnipotentes, com o mundo a girar à volta do nosso umbigo. Porém, como isso não acontece, geram-se frustrações, raiva, mal-estar e uma vitimização que ainda piora mais as coisas e nos faz implicar com os outros", diz o especialista, lembrando que esses outros são, com frequência, as pessoas que mais amamos.

Foi a pensar neste stress familiar desmedido, e em todas as pequenas coisas que os pais podem fazer no dia-a-dia para não sucumbirem à tirania do relógio, que Mário Cordeiro escreveu Pais Apressados, Filhos Stressados (ed. Desassossego), lançado hoje às 18h30 no El Corte Inglés de Lisboa, com apresentação de Tânia Ribas de Oliveira e Ana Marques. "Se há algo que não podemos esquecer é que são as crianças quem mais sofre com os modelos que têm em casa", reforça o pediatra.

É verdade que os horários escolares, laborais e "os malfadados TPC" não ajudam ninguém. Some-se a isso os ecrãs dos telemóveis, dos tablets e da televisão, que roubam os serões e ainda ocupam a hora da refeição se os pais caírem nessa, e está bom de ver que teremos o caldo entornado. "Creio que as famílias têm de parar para pensar o tempo da sua vida em casa, organizá-lo melhor segundo os ritmos dos seus vários elementos, em vez de consumi-lo com idiotices sem significado, a ver pela enésima vez as notícias", defende.

E não, não adianta esperarem pela perfeição: isso não existe. A ideia de que temos todos de ser perfeitos só nos põe nos ombros um peso que não merecemos carregar. "Por outro lado, há que interiorizar que temos de estar com os amigos e familiares, vê-los olhos nos olhos", diz o pediatra. Aprender a esperar e a tirar prazer dessas pausas. "Saber expressar os sentimentos com mímica, palavras, até silêncio, e não por emojis ou smiles."

Uma coisa é certa, garante Mário Cordeiro: pais e filhos só têm a ganhar com alternativas construtivas, que os façam sentir-se valorizados em conjunto, sem se perderem uns dos outros devido a superagendas desajustadas. São dele os conselhos que descrevemos abaixo:

  • Leia uma história aos seus filhos ao final do dia. Mais importante do que o enredo é mostrar às crianças que o pai ou a mãe estão ali com eles, presentes, com imaginação e amor. Dormimos todos melhor quando nos sentimos seguros.
  • Faça das refeições um momento privilegiado para a família conviver, conversar, estar com calma e sentir prazer no que come e nas pessoas sentadas à mesa, em vez de engolirem o que têm no prato para se irem agarrar à televisão ou aos telemóveis.
  • Reserve tempo para perguntar às suas pessoas como lhes correu o dia. Como foram no trabalho ou na escola? Como se sentem? Crie rituais na família, já que as rotinas podem ser instantes de cumplicidade preciosos.
  • Tire algum tempo de qualidade para si também. A capacidade de os pais se harmonizarem com os ritmos dos filhos depende, em larga medida, de redescobrirem a sensibilidade de que a natureza os dotou e se vai perdendo na vida frenética que levam dia após dia.
  • Aprenda a simplificar. Passar tempo de qualidade em família não exige dinheiro, apenas vontade de ir dar um passeio, estar uma tarde a fazer bolachas ou inventar um jogo. Habituámo-nos a complicar quando aquilo que as crianças mais querem é a nossa disponibilidade.

Texto de Ana Pago | Fonte: life.dn.pt