Estamos a enlouquecer as nossas crianças: estímulos demais, concentração de menos

20-10-2019

Vivemos tempos frenéticos. A cada década que passa o modo de vida de 10 anos atrás parece ficar mais distante: 10 anos viraram 30, e logo teremos a sensação de ter se passado 50 anos a cada 5. E o mundo infantil foi atingido em cheio por essas mudanças: já não se educa (ou brinca, alimenta, veste, entretêm, cuida, consola, protege, ampara e satisfaz) crianças como antigamente! 

O iPad, por exemplo, já é companheiro imprescindível nas refeições de milhares de crianças. Em muitas casas a(s) TV(s) fica(m) ligada(s) o tempo todo na programação infantil - naqueles canais cujo volume aumenta consideravelmente durante os comerciais - mesmo quando elas estão comendo com o iPad à mesa.

Muitas e muitas crianças têm atividades extra curriculares pelo menos três vezes por semana, algumas somam mais de 50 horas semanais de atividades, entre escola, cursos, desportos e apoios escolares. Existe em quase todas as casas uma profusão de brinquedos, aparelhos, recursos e pessoas disponíveis o tempo todo para garantir que a criança "aprenda coisas" e não "morra de tédio". As pré-escolas têm o mesmo método de ensino dos cursos pré-universitários.

Tudo está a ser feito para que, no final, possamos ocupar, aproveitar, espremer, sugar, potencializar, otimizar e, finalmente, capitalizar todo o tempo disponível para impor às nossas crianças uma preparação praticamente militar, visando o seu "sucesso".

O ar nas casas onde essa preocupação é latente chega a ser denso, tamanha a pressão que as crianças sofrem por desenvolver uma boa competitividade. Porém, o excesso de estímulos sonoros e visuais, físicos e informativos impedem que a criança organize os seus pensamentos e atitudes, de verdade: fica tudo muito confuso e nebuloso e as próprias informações misturam-se fazendo com que a criança mal saiba descrever o que acabou de ouvir, ver ou fazer.

Além disso, aptidões que devem ser estimuladas estão a ser deixadas de lado:

• As crianças não sabem conversar

• Não olham nos olhos dos seus interlocutores

• Não conseguem focar-se numa brincadeira ou atividade de cada vez (na verdade a maioria nem sequer sabe brincar sem a orientação de um adulto!)

• Não conseguem ler um livro, por pequeno que seja

• Não aceitam regras

• Não sabem o que é autoridade

• Não sabem esperar

Todas essas qualidades são fundamentais na construção de um ser humano íntegro, independente e pleno e devem ser aprendidas em casa, nas suas rotinas.

Precisamos fazer uma pausa. Parar e olhar em volta. Colocar a mão na consciência, tirá-la um pouco da carteira, do telefone e do volante: estamos a enlouquecer as nossas crianças e estamos impedindo-as de entender e saber lidar com os seus tempos, os seus desejos, as suas qualidades e talentos.