[Espaço CresSer] Alienação Parental!?!?

04-05-2019

Hoje sinto-me triste, angustiada e com medo....
Que mundo é este em que em nome do amor, ou melhor, de um suposto amor que não consigo compreender, não se olha a meios para atingir fins e como se fossem máquinas trituradoras, as pessoas vão destruindo tudo o que está à volta!?
Que justiça é esta que em vez de actuar como guardiã dos direitos das crianças, protegendo-as e prevenindo o seu desgaste emocional, age com base em ideias e conceitos pré-concebidos!?

Afinal o que é isto da Alienação Parental!?

Desde que comecei a acompanhar um caso onde a "suposta síndrome de alienação parental" era referida em todos os documentos e pronunciada em voz alta como justificativa de todos os comportamentos do menor e ajudava a camuflar as acusações a que os progenitores estavam sujeitos, dei por mim a pensar muito sobre este tema....

Antes de mais sou uma convicta defensora dos direitos quer dos pais, quer das mães ao convívio com os filhos e considero que uma criança deve crescer com a presença de ambos os progenitores na sua vida, mas acima de tudo sou uma defensora dos direitos das crianças! São poucas as situações de divórcio que decorrem com a integridade, serenidade, altruísmo e bom senso que o momento exige e infelizmente são poucos os adultos que conseguem colocar de lado o seu bem-estar pessoal, as suas angústias, medos, culpas, raivas e tantos outros sentimentos que se misturam nestas ocasiões, em benefício dos menores, na proteção das suas emoções, do seu equilíbrio e da sua felicidade.

É nesta conjuntura de desarmonia que surgem conceitos como o da alienação parental - Disfunção nos relacionamentos estabelecidos no sistema familiar com ação abusiva de um dos progenitores que influencia e manipula a criança a desenvolver uma imagem negativa ou mesmo repúdio pelo outro progenitor.

Este conceito introduzido por Richard Gardner em 1985 é tão complexo que a Associação de Psiquiatria Americana na sua última e recente revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, não aceitou, para já, incluir esta "síndrome" nos vários transtornos que o manual reconhece e caracteriza. No entanto, e embora não existam ainda critérios de diagnóstico definidos pela comunidade científica que nos permitam identificar e determinar a sua ocorrência, este conceito, tem sido amplamente utilizado pelo sistema judicial, muitas vezes com claro prejuízo das averiguações necessárias na real defesa do interesse dos menores.

Será que a Justiça Portuguesa viu neste novo conceito uma solução mais fácil e linear de resolver problemas complexos e simplificar o processo de decisão? Será que é uma forma mais simples de deliberar sobre casos para os quais na realidade não temos recursos necessários, ou não despendemos os recursos necessários, para concluir e decidir com segurança pelo bem-estar do menor?

Na verdade, aquilo que poderia parecer como algo facilitador do processo legal tem sido um obstáculo à seriedade e à verdade e temos assistido a deliberações jurídicas verdadeiramente arrepiantes. Quanto mais cresce esta moda da "Alienação Parental" mais parece que tudo encaixa nesse enorme e subjetivo conceito e pior porque parece que possibilita uma certa desresponsabilização dos diferentes intervenientes no processo, que avaliam e decidem de forma rápida, assuntos sérios e de difícil averiguação.
Alienação Parental, infelizmente existe sim, mas nem tudo é alienação parental!

Autoria: Ana Galhardo Simões - Psicoterapeuta Corporal - Espaço CresSer