[Eduardo Sá] Avós 4G

20-10-2019

Iguaizinhos por fora, mas por dentro...

Os avós são bondosos e são descansados. São tolerantes e são adocicados. São cúmplices! São descomplicados. São brincalhões. Não são frenéticos nem agitados. Quando andam pela rua, param as vezes todas que um neto entenda. Fazem pão de ló com a receita secreta do sabor a avós. Adivinham os gostos de uma criança. E - muito importante! - poupam nos brócolos, quando chega a hora do jantar. Contam histórias. Inventam patetices. Sentam-se no chão. Ajudam a desarrumar como mais ninguém. E contam um comboio de histórias, ao adormecer, como se todas elas pudessem não ter princípio nem ter fim. Na verdade, os avós são, entre todas as pessoas, aquelas que mais se parecem com o Pai Natal. Com a pequena particularidade de nos aparecerem, com a sua luz, quando menos se espera. E sem ser preciso escrever-lhes cartas que os lembrem de nós.
Mas, devagarinho, estes avós começam a dar lugar a uma nova "espécie" de avós. Vendo bem, estes novos avós são iguaizinhos aos "nossos avós". Mas só por fora! São fofos, é verdade. Mas o seu olhar não é nem tão fundo nem tão aconchegante como o "deles". Nem são tão escutadores. E, sobretudo, parecem tomados pelo "bicho carpinteiro". Talvez por isso, estes "novos avós" parecem ir perdendo a melhor das qualidades de todos os avós e passam a ser, sobretudo, impacientes. Estes novos avós - "4G" - vivem agarrados ao facebook, às notícias e aos ecrãs, em geral. Pespegam os olhos em nós, sim; mas só nos intervalos das notícias e dos posts. E não descem por uma corda secreta - que só os avós conhecem! - que os leva dos caracóis de uma criança até ao fundinho da sua alma. E isso não se faz!
É claro que ninguém quer que os avós sejam info-excluídos. Mas não se percebe porque é que estes avós "de nova geração" não podem ter todo um lado que os puxe para as novidades sem perderem o jeito dos "nossos avós". Que, só porque eles são como são, fazem com que o mundo se pareça mais vezes com o Natal. Só porque eles fazem de nós os seus melhores presentes.

Autoria: Eduardo Sá - eduardosa.com