[Eduardo Sá] As drogas leves que “agarram” as crianças

01-08-2019

Há uma nova espécie de droga, dura na forma como "agarra", de consumo livre e de circulação autorizada, que é partilhada por toda a família. Não se apresenta em versão de pó, não se fuma nem se inala. E é, frequentemente, acompanhada por campanhas promocionais, em festivais de verão, por exemplo. Consome-se cada vez desde mais cedo, havendo relatos de crianças de 6 e de 7 anos que a consomem, oferecida pelos pais.  

E de escolas que permitem o seu consumo sem restrições, sobretudo nos intervalos e nos horários das refeições. De início, funciona como um sedativo; as pessoas ficam quietas e caladas, respondem muito pouco aos mais diversos estímulos e não reagem, chegando a parecer autistas. Depois, O seu efeito é, geralmente, estimulante. E a dependência que gera é de tal ordem que, tirando os cada vez mais curtos períodos de sono, há quem a consuma desde que se levanta até se deitar, na casa de banho, nas cerimónias, nos concertos ou nas circunstâncias mais inconvenientes.  

Altera, de tal forma, os comportamentos que faz com que muitos restaurantes, ao fim de semana, quase pareçam "salas de chuto". E pelo modo como os adolescentes, por exemplo, reagem quando se sentem privados do seu consumo, leva a temer que desintoxicá-los dela não seja possível "a frio", tal é o modo como ela desencadeia perturbações do humor, alterações do comportamento, agitação e, até, alguma fúria incontrolável.

Como os países desenvolvidos acabam por ser muito mais avançados na forma como lidam com estas ameaças, já existem pais que contratam coaches - nos Estados Unidos, por exemplo - para levarem a que os filhos se desintoxiquem e se livrem dela, voltando a ser crianças livres das consequências nefastas do seu consumo. Esta adição generalizada, que rapidamente assumiu proporções assustadoras e ficou fora de controle, parece não ter, ainda, preocupado as autoridades portuguesas, a ponto de não merecer campanhas públicas, recomendações ou restrições ao seu consumo. Mesmo que haja relatos - assustadores! - desta nova espécie de droga ter vindo a ser objecto das mais diversas manipulações, com implicações (em grande escala!) que têm trazido gravíssimas alterações ao modo como as pessoas se comportam, como votam, como se exibem ou, até, como insultam a inteligência umas das outras.

É claro que não adianta muito mais irmos por aqui para falarmos dos perigos dos telemóveis. Que trouxeram um admirável mundo novo mas que, quando consumidos sem a tutela esclarecida dos pais, se podem tornar, de facto, e perigosamente, uma droga. Leve, na forma como circula, mas dura, no modo como agarra. O que não se entende é que os pais contratem "treinadores especializados" para ajudar as crianças a brincar como se brincava antes da sua existência, como se elas precisassem de "encantadores" e não, somente, de pais. Qual pode ser, então, o primeiro passo para desintoxicar as crianças dos écrans: que os pais se limitem, eles próprios, no seu uso. Para que, a seguir, definam regras claras para a sua utilização. E imponham restrições ao seu consumo: depois do jantar, durante a noite, às refeições ou nos momentos de família. 

Para que as escolas, a seguir, façam o que, desde há muito, já deviam ter feito, proibindo a sua utilização em meio escolar. Sem que se pretenda um mundo de volta ao Jurássico, se os pais trabalharem, todos os dias, para uma utilização mais sensata dos telemóveis, o futuro agradece.

Autoria: Eduardo Sá - eduardosa.com