[Eduardo Sá] Acabe-se com as mães-galinha

23-06-2019

A PETA, organização americana de defesa dos direitos dos animais, propôs que as expressões que incluam referências aos maus-tratos animais deixem de ser usadas. Esta iniciativa mereceu o apoio do PAN - Pessoas, Animais e Natureza - que, todavia, não irá avançar com uma iniciativa legislativa com o intuito de os proibir.

É evidente que "atirei o pau ao gato" não será uma atitude que nos lisonjeie. Seja como for, tenho um imenso receio que se esteja iniciar numa deriva que pretenda uniformizar as metáforas e que parta do pressuposto que um discurso que as deixe de utilizar nos tornará mais humanos. 

É claro que um pressuposto como esse é tão escorregadio é tão absurdo quanto a veleidade de imaginarmos que quaisquer iniciativas legislativas que prevejam que tornemos todos boas pessoas irão, sem dúvida, levar a inteligência e a capacidade de pensar a ocupar, por decreto, o lugar, hoje, preenchido, pelo populismo, pela desonestidade ou pela maldade.

Mas imaginando que o caminho vá no sentido de incisivas legislativas que, mais tarde ou mais cedo, dêem lugar às recomendações sobre a relação dos provérbios com os animais, proponho, se me permitem, que sejamos salvaguardados de algumas imagens que evocam qualidades animais que nos atribuem e que, não deixando de ser lisonjeantes para nós, talvez não façam justiça ao acréscimo humano que colocamos nessas funções. Por outras palavras, se não é razoável que desqualifiquemos os animais também não é sensato que eles nos desqualifiquem a nós.

Sendo assim, proponho que se deixe de usar, para o amor de mãe, a ideia de que o topo da maternalidade passe por sermos "mães-galinha". Ou "mãe-coruja", por exemplo. E que se deixe de chamar ao contacto pele a pele (mágico e redentor), do bebé com a sua mãe, método-canguru. Isto é, não há galinhas, corujas e cangurus que cheguem para rivalizar com o amor (humano) de mãe. E que isso de se dizer que uma mãe como deve ser é uma "leoa" deixe de ser usado porque, com todo o respeito para com as leoas, mãe humana que é mãe põe uma leoa num chinelo. Por outro lado, proponho que o desejo de muitas mães, quando querem ser abelhudas, afirmarem que gostavam de ser moscas, termine, desde já. Em primeiro lugar, porque ser mosca não pode ser um "objectivo de carreira" de qualquer mãe. E, em segundo lugar, porque já de si ser abelhuda a leva a pisar o risco e a ir por caminhos que algumas recomendações parlamentares deixariam de recomendar. Por outro lado, seria importante que se abandonasse a ideia que um coração grande - de pai ou de mãe - é um coração de leão. Não que o leão não seja "o rei" dos animais. Mas pai e mãe são os reis do que há de mais sagrado. Já agora, isso de se dar a entender que a paixão fica muito bem traduzida pela ideia de que se sentem "borboletas" na barriga não é recomendável. Não que elas não sejam belas e delicadas mas têm uma esperança de vida tão razoavelmente comprometida que não nos deixa descansados com a sobrevivência de qualquer paixão ser eterna enquanto dura... um dia ou outro. Finalmente, proponho, também, que as mães deixem de chamar, ternamente, aos seus bebés "pintainho", "macaquinho" e outras animalidades. Porque por mais que os animais mereçam toda a nossa ternura é legítimo que um bebé sinta como um atentado ao seu bom nome se for colocado ao nível dos animais .

Tudo isto, enfim, porque se não é razoável que desqualifiquemos os animais também não o será que eles nos desqualifiquem a nós.
Seja como for, se formos por aqui, estaremos a chegar a um tempo onde os decretos poderão tornar-se, em nome da salvaguarda de direitos, num exercício de tirania. E eu tenho as maiores dúvidas que o caminho para a sensatez passe por aqui.

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com