[Eduardo Sá] A grande ressaca

01-09-2019

... Das férias...

E pronto: uma pessoa respira fundo e está zen. Da pontinha do cabelo ao fundo da alma! Respira serenidade. Sente-se leve. Inspira tranquilidade a qualquer estranho que olhe para si. Fez dieta. Não comeu "porcarias", como bolas de Berlim e pratinhos de batatas fritas a acompanhar mais uma cerveja. E descansou. O tempo todo! Leu que se fartou. Meditou. Dormitou. Aderiu à sesta, sempre que quis. Bronzeou-se o tempo que entendeu. Mergulhou. 

Caminhou pela praia. Teve jantares engraçadíssimos que avançaram para tarde e más horas. Não ligou às redes sociais. As férias foram, todo elas, um tempo muito detox. Assim, sim! Ah!, as férias!... 

O problema é que nos vendem as férias mas ninguém nos diz que uma mãe não tem de férias de crianças. Certo?... Logo, o dia começa às 4 e picos da madrugada. "Mãe, já é de manhã?" . "E se te calasses, era bom. Não era?"... 5 minutos, depois, a mesma mão a abrir-nos os olhos: "Mãe, quero fazer xixi..." E, depois, uma pessoa levanta-se. Tropeça num brinquedo. Barafusta. Acaba a deitar-se na cama do lado, no quarto das crianças. "Mãe, posso ir para a sala?". "Podes é estar calado! Sim?!...". Às 6, outra das crianças, quer "beber leitinho". A seguir, acordou o irmão. Às sete, o dia já vai longo. O pai, entretanto, só não acordou porque - acontece aos melhores - pai que é pai só não acorda porque "hiberna" nas férias. Às 8 já se gastou imenso latim. 10 minutos depois, a primeira gritaria do dia. E o primeiro protesto: "Mãe, quero ir para a praia!". E, depois, claro, há a cesta das toalhas. Os calções para depois do banho. A geleira. A caixa com as uvas. As bolachas. Fraldas para a água. Mais os chapéus, por causa do sol. As braçadeiras, também. Os baldes com formas, pás e ancinhos. Mais as raquetes e as bolas. O protector, antes de se sair. Mais 20 minutos com toda gente a procurar as havaianas duma das crianças, que se escapuliram. E, depois, a correria do costume para ver quem é que chega primeiro à praia. Entretanto, uma das crianças estatelou-se, chora e pede colo. Nada mais simples, portanto: a cesta, as toalhas, uma criança pendurada, mais um ror de escadas até à areia, para descer. Antes, já outra parou à frente de cada um dos automóveis estacionados para saber qual era a marca. E, entretanto, começou a contagem decrescente para ver quem pede primeiro um gelado. Mais 20 minutos a estender toalhas e reforçar o protector. Mais outro tanto a puxar pela voz para saber quem encheu de areia a nossa toalha. Passa o senhor das bolachas Americanas mas ninguém ousa abrir o bico tal é nosso ar. Entretanto, uma das crianças já mais parece um "croquete". E outra atirou com areia, para o senhor do lado, sem querer. Entretanto, a primeira amuou porque não quer pôr os pés na areia para ir até ao mar. Vem a segunda ronda das bolachas. E, depois, a terceira e a quarta. E, é claro, uma das crianças entusiasma-se e corre para o mar. E, por mais que a voz nos doa, ninguém nos ouve. E mais um: "Mãe, tenho fome!". E outro: "Mãe, tenho frio!". E mais a décima sétima tentativa de um deles a querer um gelado. E, depois, vem o banho. Mudar calções e fatos de banho. Querê-los quietos e calados. E já há areia na cesta. E no romance que espera há dias para ser começado. E ainda não chegou o almoço. A hora da sesta, em que ninguém quer dormir. E a casa, que se virou do avesso. O regresso à praia. O regresso da praia. A areia espalhada pela sala. Os banhos. Mais uma gritaria com uma das crianças a garantir-nos que foi o irmão que começou. O jantar. Mais uma frente de resistência em relação ao sono. E quando, finalmente, o silêncio regressa uma pessoa adormece ao fim de cinco minutos de seja o que for. E a jornada de trabalho, das 6 às 22, já dava quase para uma semana. Tudo multiplicado por sete dias.

Autoria: Eduardo Sá - eduardosa.com