Covid-19. Amamentação: sim ou não?

20-03-2020

A Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação mesmo no caso de as mães estarem infectadas. Em Portugal, a Direcção-Geral de Saúde emitiu orientações amplas o suficiente para deixar aos médicos a decisão. Desta forma, coloca-se a questão: o que recomendam os médicos?

José Santos, ex-presidente do Conselho de Pediatria da Ordem dos Médicos, disse ao jornal Expresso que "o contacto da mãe com o bebé é muito importante do ponto de vista psicológico" e que "o aleitamento materno nos primeiros dois, três, quatro dias, é crucial". 

Isto porque, o leite materno transmite ao bebé muitas defesas, uma vez que contém anticorpos e células capazes de combater infecções. Mais: "O leite materno vai-se modificando ao longo dos dias e das semanas, em termos de composição, adaptando-se às necessidades específicas do bebé a cada momento". Por esta razão, este especialista concorda com as recomendações da OMS e é a favor da amamentação. Explica que "se a mãe estiver devidamente protegida e desinfectada, não vejo porque é que não possa amamentar. Afastar a criança da mãe pode ser ainda mais problemático nos países menos desenvolvidos, que não têm capacidade para alimentar a criança de forma artificial".

Por sua vez, João Bernardes, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, em declarações ao mesmo jornal esclarece que "nos países em que foram adoptadas normas mais restritivas e preventivas", onde se inclui Portugal, "não se está a aconselhar a amamentação, mesmo que as mães infectadas estejam sem sintomas". Esta é, também, a recomendação do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos. Já nos países onde foram adoptadas "normas menos restritivas", por exemplo o Reino Unido, "a amamentação é recomendada, estando apenas contra-indicada nos casos de infecção com sintomas moderados a graves".

No início de Março, a OMS emitiu orientações para grávidas e recém-nascidos, recomendando que "os bebés nascidos de mães com suspeita de infecção ou infecção confirmada devem ser amamentados de acordo com as normas gerais, aplicando as necessárias precauções para controlo e prevenção de doença infecciosa". No documento da OMS é ainda referido que a amamentação "protege contra a morbilidade e a morte no período pós-neonatal e durante a infância". O efeito protector é especialmente forte contra as doenças infecciosas, pela transferência directa de anticorpos e outros factores anti-infecciosos e transferência de capacidades imunológicas". Por último, a OMS diz ainda que "não há evidências de que as mulheres grávidas infectadas com covid-19 apresentem sintomas diferentes da doença ou apresentem um "maior risco de desenvolver doença grave".

Perante esta informação, coloca-se a questão: por que razão Portugal está a adoptar um procedimento diferente? João Bernardes explica: "Apesar de não terem sido detectados vírus no leite materno, pode haver transmissão mãe-filho através do contacto com a pele e com as secreções nasais." Mas a recomendação de não praticar a amamentação tem igualmente consequências, tal como avança o mesmo especialista: "perda dos benefícios nutricionais e imunológicos da amamentação. Interfere também com a vinculação entre mãe e filho, que é tão importante, mas se a vida do bebé estiver em risco, é necessário minimizar o contacto entre ambos."

Por esta razão, aconselha-se que o contacto entre o bebé e a mãe infectada seja evitado, mas isso não significa que ambos não se vejam. Os dois especialistas dizem que é necessário preparar a mãe psicologicamente para esta situação. Há que "tranquilizar a grávida, mantendo-a bem informada sobre a sua situação e do seu filho e permitindo o contacto possível com a criança, nem que este contacto seja apenas visual numa fase inicial", afirma João Bernardes.

O mesmo especialista esclarece ainda ao Expresso que "não há evidências de transmissão vertical durante a gravidez, seja através da placenta, seja por contaminação durante a passagem pelo canal do parto. Não foi confirmada infecção em nenhum bebé nascido de uma mãe infectada nas primeiras horas após o parto. Mais tarde, sim, mas aí pensa-se que terá sido pelo contacto com a mãe, embora não seja certo que assim tenha acontecido."