A história do pai a pentear o cabelo da filha negra — e que venceu um Óscar

13-02-2020

"Hair Love" arrancou com uma campanha da Kickstarter em 2017. No domingo, o realizador Matthew A. Cherry venceu a estatueta. 

A pequena Zuri dorme tranquilamente quando o seu gato, cinzento e felpudo, lança um "miau" como se fosse um despertador. Com uma touca rosa a condizer com o pijama, a menina africana levanta-se com a determinação de um leão. Afinal, chegou o 12 de março, um dia bastante importante - e mais à frente percebe-se porquê.

Começa assim "Hair Love", o filme de seis minutos e 47 segundos da Sony Pictures Animation que venceu no domingo, 9 de fevereiro, o Óscar de Melhor Curta-Metragem Animada, no Teatro Dolby, em Los Angeles, nos Estados Unidos. 

Realizada por Matthew A. Cherry, a curta começou por estar na plataforma de crowdfunding Kickstarter em 2017. Na altura, o realizador (e antigo jogador da liga americana NFL) pedia 75 mil dólares (cerca de 67 mil euros) para contar a história de um pai afro-americano que tentava pentear o cabelo da filha pela primeira vez.

O americano acabou por conseguir angariar 284 mil euros (255 mil euros). Dois anos depois, a curta-metragem estreou nos cinemas dos Estados Unidos - onde era exibido antes de cada sessão do filme "Angry Birds 2".

Quando subiu ao palco com a produtora Karen Rupert Toliver para receber a estatueta, Matthew disse no discurso de aceitação que a curta "nasceu de querer ver mais representação na animação, mas também de querer normalizar o cabelo das pessoas negras".

Acontece que não é só esta a mensagem da história de Zuri. Além da alusão aos desafios paternos, importância da auto-estima e aceitação, "Hair Love" é o que em linguagem popular, se chama de "murro no estômago".

Vamos a factos. A história, como já falámos, começa com a pequena Zuri a levantar-se da cama para ter um dia especial. Veste a roupa de bailarina favorita, calça as sapatilhas e segue para a casa de banho, sítio onde começa a árdua tarefa de pentear o seu grande e robusto cabelo.

Como não consegue domar a cabeleira afro, que parece ter vida própria, a miúda começa a ver tutoriais de penteados feitos pela sua mãe - cuja voz é da atriz norte-americana Issa Rae - no YouTube. Zuri até acaba por fazer um, mas fica completamente desajeitado.

É nessa altura que entra em cena Stephen, o pai afro-americano com tatuagens que, de repente, se vê num mundo que desconhece: o da cosmética. Mesmo sem experiência, Stephen tenta usar os secadores, escovas e pentes. Acaba por não conseguir ter sucesso - o que provoca uma enorme tristeza em Zuri.

Incapaz de ver a menina desiludida, este pai decide esforçar-se, segue um dos vídeos da mulher e consegue fazer um penteado incrível. A curta termina com Zuri e Stephen no hospital. Afinal, havia mesmo um grande acontecimento naquele dia: iam buscar a mãe, que tinha vencido um cancro.

A história acaba com várias imagens destes pais felizes a pentearem o cabelo afro da filha. Nelas é possível ver a mãe da Zuri a recuperar - primeiro careca e depois já com cabelo. 

No discurso de aceitação do Óscar, a produtora Karen Rupert Toliver aproveitou para também dizer umas palavras. "Quando fizemos a campanha no Kickstarter em 2017 não havia muita diversidade nas animações. (...) Estar aqui depois de fazer isto com um cabelo afro e um família negra é literalmente um sonho."

Na plateia, a assistir à cerimónia da 92.ª edição dos Óscares, estava um convidado especial de Karen e Matthew A. Cherry: DeAndre Arnold. O adolescente norte-americano foi suspenso da escola secundária, no Texas, quando andava no sétimo ano, por usar rastas demasiado longas.

Segundo o aluno, recebeu um aviso da escola que dizia que se não cortasse o cabelo não podia entrar na cerimónia de graduação. Em entrevista ao jornal "The New York Times", DeAndre mostrou a sua alegria por lá estar. "O miúdo com rastas está nos Óscares. Enquanto todas as pessoas em casa estão chateadas, eu estou nos Óscares".